UM DIA PESCADO NA MEMÓRIA
aquela porção de águas-vivas que a maré trouxera,
aquele jardim liláceo que boiava na areia.
Era domingo. Nunca, assim, um domingo tão acre:
uma praia toda cercada de águas, como um lacre.
Fustigaram algumas com uns palitos de picolé.
Quando iam voltar, o menino engrolava a língua,
queria chorar, queria esmurrar o mar, queria...
Só restava lembrar de uma mulher com cobras na cabeça:
uma mitologia, ou quem sabe um desastre ambiental.
As águas-vivas agonizavam na areia, indiferentes.
Domingo, hoje digo, é um dia morto. Mas não eram.
Nem aquele, com sua fita roxa, cor de exéquias.
Num calendário amarfanhado vem marcado a vermelho
e ainda queima.





